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Chasque do Menestrel

Esta Terra Tem Dono!

Por: Sam Martin de Araujo Publicado em 13/07/2026 às 17:00
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Há frases que atravessam os séculos. Não porque foram escritas em livros, mas porque nasceram da coragem de quem decidiu defender aquilo que acreditava ser sagrado. Entre todas elas, poucas carregam tanta força quanto

"Co Yvy Oguereco Yara" — expressão em guarani que significa "Esta terra tem dono."

Não foi apenas uma frase. Foi um grito de resistência.

Foi pronunciada por um homem que se transformaria em um dos maiores símbolos da história do Rio Grande do Sul: Sepé Tiaraju.

Muito antes das fronteiras que hoje conhecemos, muito antes de existirem estâncias, cidades ou cercas dividindo os campos, a região missioneira era habitada pelos povos guaranis. Com a chegada dos jesuítas espanhóis, surgiram os 

Sete Povos das Missões, onde indígenas e missionários construíram uma experiência única de organização social, trabalho, agricultura, criação de gado, arte e música.

Ali, os guaranis não eram simples habitantes. Eram parte daquela terra. Plantavam, criavam seus animais, construíam suas casas e preservavam sua cultura. Era o lugar onde seus filhos nasciam e seus ancestrais descansavam.

Mas a história mudaria em 1750.

Naquele ano, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, redesenhando os limites de seus territórios na América. Pelo acordo, os Sete Povos das Missões passariam ao domínio português. Em troca, a Espanha receberia a Colônia do Sacramento.

O problema é que ninguém perguntou aos verdadeiros moradores se aceitavam abandonar suas terras.

A ordem era clara: milhares de guaranis deveriam deixar tudo para trás e partir.

  • Casas;
  • Igrejas;
  • Plantações;
  • Rebanhos;
  • A própria história.

Foi então que surgiu a liderança de Sepé Tiaraju.

Mais do que um guerreiro, Sepé era um líder respeitado entre seu povo. Conhecia aquelas terras como quem conhece o próprio coração. Sabia que não era apenas uma disputa entre coroas europeias. Era a sobrevivência de um povo inteiro.

Diante dos representantes portugueses e espanhóis, teria pronunciado as palavras que atravessariam gerações:

"Co Yvy Oguereco Yara."

"Esta terra tem dono."

Não era uma declaração de propriedade.

Era uma afirmação de pertencimento.

A terra não era um pedaço de chão negociado em um tratado assinado do outro lado do oceano. Ela possuía história, memória, cultura e um povo que ali vivia muito antes da chegada dos impérios europeus.

Começava ali a chamada Guerra Guaranítica.

Entre 1753 e 1756, indígenas guaranis enfrentaram tropas muito mais numerosas e equipadas, formadas justamente pela união dos exércitos português e espanhol — antigos rivais que, naquele momento, lutavam lado a lado para cumprir o tratado.

Mesmo em enorme desvantagem, Sepé jamais abandonou seus companheiros.

Em 7 de fevereiro de 1756, durante um confronto próximo ao atual município de São Gabriel, foi morto em combate.

Conta a tradição que suas últimas palavras foram:

"Esta terra tem dono."

Embora os historiadores debatam se essa foi realmente sua última frase, o significado permaneceu vivo no imaginário gaúcho.

Poucos dias depois da morte de Sepé, ocorreu a Batalha de Caiboaté, onde milhares de indígenas foram massacrados. A resistência missioneira chegava ao fim, mas sua memória jamais seria apagada.

Com o passar dos séculos, Sepé deixou de ser apenas um personagem histórico.

Transformou-se em símbolo.

Símbolo da defesa da terra.

Da liberdade.

Da dignidade.

Da coragem de enfrentar forças muito maiores quando aquilo que está em jogo é a própria identidade.

Não por acaso, sua figura inspira livros, canções, poemas, monumentos e celebrações por todo o Rio Grande do Sul. Em 2009, foi oficialmente reconhecido como Herói Guarani Missioneiro Rio-Grandense, tornando-se parte da memória oficial do Estado.

Talvez seja por isso que, quando ouvimos a frase "Co Yvy Oguereco Yara", ela continue fazendo tanto sentido.

Ela nos lembra que a terra não é apenas um espaço delimitado em mapas.

É onde estão nossas raízes.

Nossa cultura.

Nossa história.

Nossa gente.

E talvez essa seja a maior herança deixada por Sepé Tiaraju.

Não a de um guerreiro que venceu batalhas.

Mas a de um homem que ensinou que existem valores que não podem ser negociados.

Porque há coisas que pertencem ao coração de um povo.

E essas, nenhuma assinatura é capaz de entregar.

"Co Yvy Oguereco Yara."

"Esta terra tem dono."

Mais do que uma frase, um legado que continua ecoando pelos campos missioneiros e lembrando a cada geração que conhecer a própria história é também uma forma de preservar a identidade.

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