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Santo de casa não faz milagre... será?

Por: Sam Martin de Araujo Publicado em 23/07/2026 às 12:00
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Tem ditado que a gente escuta desde pequeno e acaba aceitando como verdade. Um deles talvez seja um dos mais conhecidos da língua portuguesa:

"Santo de casa não faz milagre."

Quantas vezes ouvimos essa frase?

Na mesa do almoço, numa conversa entre amigos... Sempre que alguém comenta que uma pessoa da cidade só foi valorizada depois de ir embora, logo aparece alguém repetindo o velho ditado.

Mas, olhando para a nossa história, fico pensando...

Será mesmo?

A origem dessa expressão é muito antiga. Ela nasceu da passagem bíblica em que Jesus volta para Nazaré, a cidade onde cresceu. Lá, muitos não conseguiam enxergar nele o mestre que já era admirado em outras regiões. Para eles, continuava sendo apenas o filho do carpinteiro.

Com o tempo, aquela ideia ganhou outras formas. Em Portugal dizia-se que "santo da casa não obra milagres". Aqui no Brasil, o povo simplificou a expressão até chegar ao ditado que conhecemos hoje.

Só que, sinceramente, acho que o problema nunca esteve no santo.

Talvez tenha estado em quem olha para ele.

Existe uma cena que se repete em quase toda cidade pequena.

A gente vê uma criança crescer, brincar na rua, estudar na escola da comunidade. Depois ela aprende um ofício, descobre um talento, dedica anos da vida à música, à poesia, ao ensino, à pesquisa ou à cultura.

Mas como sempre esteve ali, do nosso lado, continuamos enxergando aquela pessoa como "o filho do fulano", "a guria da esquina", "o vizinho de tantos anos".

Sem perceber, a convivência acaba escondendo o talento.

Até que um dia essa mesma pessoa é convidada para um festival, recebe uma homenagem em outra cidade, participa de um congresso, publica um livro ou sobe ao palco de um grande evento.

É curioso...

Longe de casa, passa a ser apresentada como referência.

Em casa, continua sendo apenas "alguém conhecido".

A história está cheia de exemplos.

Mário Quintana foi um dos maiores poetas da língua portuguesa, mas durante muito tempo encontrou mais reconhecimento fora do que dentro de sua própria cidade.

Jayme Caetano Braun percorreu o Rio Grande, a Argentina e o Uruguai levando a poesia campeira antes de se tornar um dos maiores símbolos da cultura gaúcha.

Luiz Carlos Barbosa Lessa, um dos criadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho, precisou defender suas ideias por muitos anos até que elas fossem compreendidas e abraçadas por todo o Estado.

E não pense que isso acontece apenas com artistas famosos.

Basta olhar para a nossa própria comunidade.

Quantos músicos animam festas em outras cidades e quase nunca são lembrados na sua?

Quantos professores dedicaram uma vida inteira formando gerações sem nunca receber uma homenagem?

Quantos pesquisadores preservam documentos, fotografias e histórias que talvez já tivessem desaparecido, se não fosse o trabalho silencioso deles?

Quantos voluntários ajudam a construir entidades, igrejas, CTGs e associações sem nunca esperar aplausos?

Talvez o velho ditado exista porque a convivência nos acostuma.

Quando vemos alguém todos os dias, deixamos de perceber o tamanho da caminhada que ele percorreu.

O extraordinário vira rotina.

O talento parece comum.

Enquanto isso, quem vem de fora costuma despertar admiração antes mesmo de mostrar o que sabe fazer.

Não estou dizendo que devemos valorizar menos quem chega. Muito pelo contrário. Toda pessoa que compartilha conhecimento merece respeito.

Mas talvez esteja na hora de aprendermos a olhar também para quem está ao nosso lado.

Porque nenhuma comunidade cresce apenas admirando os talentos de fora.

Ela cresce quando aprende a reconhecer os seus próprios.

Quando incentiva seus artistas.

Quando preserva seus pesquisadores.

Quando apoia seus músicos.

Quando escuta seus escritores.

Quando entende que cultura não nasce pronta.

Ela é construída por pessoas.

Pessoas que moram na mesma rua, frequentam o mesmo mercado, tomam chimarrão na mesma praça e ajudam, todos os dias, a contar a história do lugar onde vivem.

Talvez, no fim das contas, o velho ditado esteja incompleto.

Porque santo de casa faz, sim, seus milagres.

O problema é que, muitas vezes, a gente só percebe isso quando ele já está fazendo milagres na casa dos outros.

E há uma diferença enorme entre reconhecer alguém depois que o mundo inteiro já o aplaudiu e reconhecer enquanto ele ainda caminha pelas mesmas ruas que nós.

A primeira atitude é admiração.

A segunda é gratidão.

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